Embaixadora Ana Gomes
“A diplomacia portuguesa ficou claramente a ganhar com o aproveitamento das qualidades, sensibilidades, talentos e experiências que as mulheres trouxeram à carreira diplomática".

Embaixadora Ana Gomes

Foi recentemente distinguida com o prémio de eurodeputada "ativista do ano", facto que não surpreende quem conhece a sua determinação e capacidade de trabalho, e que constitui também um motivo de orgulho para Portugal e para a carreira diplomática portuguesa. Em que medida é que sua experiência profissional como diplomata lhe foi útil para o exercício das funções de parlamentar europeia?

Foi de insuperável utilidade. Quer pela preparação relativamente aos temas de que me ocupo no Parlamento Europeu, como membro das Comissões de Assuntos Externos, Desenvolvimento e da Subcomissão de Segurança e Defesa; quer pela experiência de negociação, pois dada a representação dos diferentes grupos políticos no Parlamento Europeu, sem que nenhum tenha a maioria, todos os relatórios e resoluções têm de ser objeto de compromissos e de procura de consensos tão abrangentes quanto possível.
Neste quadro, a experiência multilateral que a carreira diplomática me proporcionou, em postos como Genebra ou Nova Iorque em especial, equipou-me bem para as funções de eurodeputada.
As colegas da Secretaria de Estado que, volta e meia, me perguntam como é o trabalho no Parlamento Europeu, costumo responder que, para mim, é mais ao menos como o trabalho multilateral na REPER, NUOI, OSCE ou ONU. Com uma substancial diferença: é que, como socialista, não preciso de pedir ou receber instruções e eu própria escolho as causas por que terço armas.

Pondera um dia regressar à carreira diplomática? Qual foi o seu posto mais marcante?
Poderei voltar, sem dúvida. Aliás, estou preparada para voltar a qualquer momento. E isso - o facto de ter uma carreira profissional a que posso sempre voltar - tem sido muito importante para a independência da minha actuação política.

Todos os meus postos foram marcantes - vivi-os intensamente do ponto de vista profissional e pessoal. Diverti-me muito e enriqueci culturalmente em todos eles. Destaco o primeiro e o último: Genebra - porque foi o primeiro e porque foi aí que o meu querido Embaixador António Costa Lobo me pegou o bichinho dos direitos humanos, de que nunca me libertei nem quero libertar. E Jacarta: por tudo, que é Timor Leste e muito mais - tive o privilégio de viver o PREC indonésio, fazer lá muitos amigos e ficar com aquele deslumbrante arquipélago e os seus povos para sempre no coração e na memória; as saudades, sempre que posso mato-as, voltando lá em visita.

Como vê a integração das mulheres na carreira diplomática portuguesa (carreira essa que até ao 25 de Abril lhes era vedada)? Hoje em dia, as dificuldades - sobretudo no que à família diz respeito - ainda são maiores para as mulheres ou serão já equivalentes às dos homens? Que conselho daria às jovens diplomatas?

Penso que a integração está hoje adquirida, no sentido em que ninguém ousa já pôr em causa que as mulheres sejam tão capazes como os homens para o desempenho de funções diplomáticas (quando entrei ainda tive de ouvir um diplo-troglodita e algumas caras -metades de colegas questionarem as capacidades daquelas que vinham roubar lugares aos homens...).
Penso também que a diplomacia portuguesa ficou claramente a ganhar com o aproveitamento das qualidades, sensibilidades, talentos e experiências que as mulheres trouxeram à carreira diplomática, além do impacte positivo na imagem do Portugal democrático que elas ajudaram a projectar. Aliás, as próprias relações pessoais e funcionais dentro do MNE mudaram para muito melhor, ou seja, tornaram-se mais democráticas e menos artificialmente hierarquizadas, graças à presença de mulheres nos quadros diplomáticos.

“Que conselho daria às jovens diplomatas? Dar o máximo e o melhor, mas preparadas para lutar pelos seus direitos e não aparar golpaças. Ah, e ter bem presente que há vida para além da carreira diplomática. Pensando bem, dava os mesmos conselhos aos jovens diplomatas...”

Como vê a integração das mulheres na carreira diplomática portuguesa (carreira essa que até ao 25 de Abril lhes era vedada)? Hoje em dia, as dificuldades - sobretudo no que à família diz respeito - ainda são maiores para as mulheres ou serão já equivalentes às dos homens? Que conselho daria às jovens diplomatas?

Penso que a integração está hoje adquirida, no sentido em que ninguém ousa já pôr em causa que as mulheres sejam tão capazes como os homens para o desempenho de funções diplomáticas (quando entrei ainda tive de ouvir um diplo-troglodita e algumas caras-metades de colegas questionarem as capacidades daquelas que vinham roubar lugares aos homens...).
Penso também que a diplomacia portuguesa ficou claramente a ganhar com o aproveitamento das qualidades, sensibilidades, talentos e experiências que as mulheres trouxeram à carreira diplomática, além do impacte positivo na imagem do Portugal democrático que elas ajudaram a projectar. Aliás, as próprias relações pessoais e funcionais dentro do MNE mudaram para muito melhor, ou seja, tornaram-se mais democráticas e menos artificialmente hierarquizadas, graças à presença de mulheres nos quadros diplomáticos.

Claro que nada disto se fez sem custos e sem combates - travados por mulheres e homens progressistas na Secretaria de Estado. Eu não me esqueço de que, quando a Anabela Cardoso se candidatou para o Tóquio, nos anos 80, houve quem no Conselho sustentasse que o Japão "não era posto para uma mulher"... Nem daquela outra colega, colocada numa capital europeia, cujo embaixador lhe atribuía a classificação de excelente, mas por detrás escrevia ao Secretário-Geral a pedir que ela não fosse promovida, supostamente porque o embaraçaria por receber muitas vezes o MNE local em casa...
Um dos preços que muitas mulheres da minha geração pagaram foi ter de escolher a carreira, em detrimento da família, ou pelo menos do cônjuge. Hoje, felizmente, há vários casos em que a Secretaria de Estado pelo menos procurou conciliar as colocações com a vida familiar, em particular para casais diplomatas - e bem sabemos como é difícil, sendo tão escassos os postos. Mas para outros diplomatas em que os cônjuges têm outras carreiras profissionais, é evidente que as opções familiares dilacerantes persistem. E embora tanto homens como mulheres defrontem esse problema colocado pela profissão diplomática de um dos cônjuges, julgo que há mais homens que mulheres a conseguir fazer os cônjuges aceitarem prescindir ou interromper a sua atividade profissional para acompanhar aquele que é diplomata. O problema não é fácil de resolver, embora haja países que tenham experiências bem sucedidas de integração profissional dos cônjuges dos diplomatas em diferentes postos.

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Como vê a integração das mulheres na carreira diplomática portuguesa (carreira essa que até ao 25 de Abril lhes era vedada)? Hoje em dia, as dificuldades - sobretudo no que à família diz respeito - ainda são maiores para as mulheres ou serão já equivalentes às dos homens? Que conselho daria às jovens diplomatas?

Penso que a integração está hoje adquirida, no sentido em que ninguém ousa já pôr em causa que as mulheres sejam tão capazes como os homens para o desempenho de funções diplomáticas (quando entrei ainda tive de ouvir um diplo-troglodita e algumas caras -metades de colegas questionarem as capacidades daquelas que vinham roubar lugares aos homens...).
Penso também que a diplomacia portuguesa ficou claramente a ganhar com o aproveitamento das qualidades, sensibilidades, talentos e experiências que as mulheres trouxeram à carreira diplomática, além do impacte positivo na imagem do Portugal democrático que elas ajudaram a projectar. Aliás, as próprias relações pessoais e funcionais dentro do MNE mudaram para muito melhor, ou seja, tornaram-se mais democráticas e menos artificialmente hierarquizadas, graças à presença de mulheres nos quadros diplomáticos.

Claro que nada disto se fez sem custos e sem combates - travados por mulheres e homens progressistas na Secretaria de Estado. Eu não me esqueço de que, quando a Anabela Cardoso se candidatou para o Tóquio, nos anos 80, houve quem no Conselho sustentasse que o Japão "não era posto para uma mulher"... Nem daquela outra colega, colocada numa capital europeia, cujo embaixador lhe atribuía a classificação de excelente, mas por detrás escrevia ao Secretário-Geral a pedir que ela não fosse promovida, supostamente porque o embaraçaria por receber muitas vezes o MNE local em casa...
Um dos preços que muitas mulheres da minha geração pagaram foi ter de escolher a carreira, em detrimento da família, ou pelo menos do cônjuge. Hoje, felizmente, há vários casos em que a Secretaria de Estado pelo menos procurou conciliar as colocações com a vida familiar, em particular para casais diplomatas - e bem sabemos como é difícil, sendo tão escassos os postos.
Mas para outros diplomatas em que os cônjuges têm outras carreiras profissionais, é evidente que as opções familiares dilacerantes persistem. E embora tanto homens como mulheres defrontem esse problema colocado pela profissão diplomática de um dos cônjuges, julgo que há mais homens que mulheres a conseguir fazer os cônjuges aceitarem prescindir ou interromper a sua atividade profissional para acompanhar aquele que é diplomata. O problema não é fácil de resolver, embora haja países que tenham experiências bem sucedidas de integração profissional dos cônjuges dos diplomatas em diferentes postos.

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